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Do Caos à Crônica

Monstros e fadas

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Já notaram esse nosso hábito de julgar as pessoas em boas e más? É algo tão natural, tão automático, não é? E a gente erra toda vez. E isso é diferente de outras habilidades, porque quanto mais você pratica, mais você erra. Não adianta insistir. Porque, veja, ‘bom’ e ‘mau’, sempre será uma questão de perspectiva.

João é um empresário bem-sucedido, um patrão compreensivo, e é carinhoso com a namorada. No entanto, ele não registrou o próprio filho. A criança não tem contato com o pai e não recebe pensão. João é bom ou mau?

Ana Cláudia é uma mãe dedicada, uma filha zelosa com seus pais idosos, uma esposa fiel e amorosa. Mas Ana furta produtos de lojas. Ana Cláudia é boa ou má?

“Nossa, que monstro!”, quem nunca disse isso? Ou “Fulana é um anjo!”. Olha, sinto muito, mas anjos e demônios eu nunca vi! Fadas e monstros só vi nos meus sonhos e pesadelos mais criativos, elaborados pela liberdade da minha própria mente.

Nas minhas andanças prisionais, conheci muitas pessoas… As enxerguei sob as múltiplas perspectivas. Mas, inevitavelmente, todas que ali estão, foram julgadas como más pela justiça e como monstros pela sociedade.

O que eu posso lhe dizer? Estamos demonizando pessoas… Estamos desumanizando o outro e, assim, esquecendo a semelhança primordial e mais avassaladora entre você e eu: a nossa espécie. Não há monstros, nem anjos, nem fadas… Somos todos humanos.

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6 Comentários

6 Comments

  1. Talita

    13 de janeiro de 2020 em 09:02

    👏👏👏👏👏👏

  2. ANA FERRER

    13 de janeiro de 2020 em 09:12

    Muito bem Nanda.Ótima crônica

  3. Maria das Graças Pimentel Sá

    13 de janeiro de 2020 em 19:29

    Concordo que somos humanos e como tal erramos. Mas estamos numa tentativa constante de corrigir nossos erros.
    Deixe que sua consciência seu juiz e não o juiz dos outros.
    Excelente reflexão, amei!

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Do Caos à Crônica

O resto é só firula

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Ontem fui tomar um café numa dessas casas de chá e, como de costume quando estou só, fiquei observando as pessoas – esse é um dos meus passatempos favoritos. Intercalo os meus olhares curiosos com uma leitura, uma escrita, ou mexo no celular, até para que ninguém fique onstrangido.

Para o meu deleite, surgiu uma figura interessantíssima. Na verdade, em menor grau, era uma figura até comum. Explico-me, ela era uma mulher jovem, muito elegante, com unhas e cabelos impecáveis, roupa chique, toda maquiada. A primeira coisa que pensei ao vê-la foi: capa de revista!

Continuei a observá-la discretamente – eu estava quase uma investigadora da Interpol. Notei que ela aguardava por alguém, pois não conseguia desfrutar da própria companhia. Aos poucos, eu não conseguia mais enxergar deslumbre naquela moça. Ela era linda e estava tão arrumada, o que houve? A observei um pouco mais e entendi o motivo: ela não confiava nela mesma. Senti vontade de oferecer uma conversa das boas, daquelas que traz a pessoa para a realidade… Mas me lembrei eu estava bancando a agente secreta naquele momento.

Uma mulher segura não tem a ver com unhas de porcelana, maquiagem perfeita, cabelo modelado, corpo sarado, nem com roupas da estação. Tudo isso agrega valor, é claro. Quem não fica um espetáculo com esse somatório de atributos? Mas tudo isso é firula! Após o primeiro impacto, se não houver a autoconfiança, você percebe que algo está faltando.

Como qualquer pessoa, uma mulher segura tem insatisfações, vaidades e metas, mas isso não a impede de se amar, porque ela sabe do próprio valor. Ela sabe que é uma mulher incrível pelas atitudes que tem, pela forma com que se posiciona no mundo, e por tudo o que acredita.

Você percebe uma mulher segura pela forma com que ela anda, que ela fala, e que até se poupa de falar. Você a nota pelas escolhas… Pela sabedoria de cadasim e de cada não, porque ela tem uma combinação fascinante: inteligência emocional e amor-próprio.

Ela sabe – como dois mais dois são quatro – que um sorriso sincero, uma gargalhada contagiante, um olhar penetrante, uma conversa agradável valem muito mais do que qualquer maquiagem impecável. Ela sabe que o jeito dela é enebriante… E que o resto é só firula.

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Não falo sozinha, converso comigo

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Nunca tive um amigo imaginário na infância… Até hoje eu não tenho – ainda bem, né? Porque na infância é até aceitável, mas na minha idade já seria esquizofrenia (com todo respeito aos esquizofrênicos, claro). Acredito que eu não tenha precisado criar um, porque sempre me virei muito bem, dialogando comigo mesma.

Pois é… Alguns agentes do F.B.I. (Familiares Bisbilhoteiros Intrometidos) já me flagraram tendo empolgantes conversas com… comigo! Certa vez, meu pai passou por mim quando eu estava muito concentrada fazendo “sabe Deus o que”, ele deu meia volta, parou na porta do quarto e disse: “Tá falando sozinha? Olhe… Isso não é normal…”.

Não falo sozinha, pai… Só bato um papo agradável com a minha pessoa, de vez em quando. E quer saber? Eu acho isso bem normal! Ora! Se a minha mente estiver abundante em pensamentos, elucubrando uma série de situações, e precisando compartilhar essa efervescência toda, eu vou ficar feito tonta esperando a companhia de alguém para falar? Eu não… Me viro só, ué!

Já comentei com vocês que a minha imaginação é impetuosa (só não o bastante para criar um bendito amigo imaginário). Então eu me faço perguntas, eu mesma respondo, dou dois reboliços e já apresento os contrapontos. A conversa rende por horas.

Bom mesmo é o falatório que extravasa, aquele que dá para tagarelar à vontade, em voz alta. Porque, às vezes, o murmurinho acontece apenas no cocuruto… Esse é péssimo! É aquele cochicho enjoado na cabeça, sabe? Não gosto assim. Ele acontece principalmente em público, porque não dá para a gente ficar dando uma de doida publicamente. Ou dá? Melhor não arriscar… Pelo menos, não toda hora.

Bom, vou continuar falando pelos cotovelos, trocando figurinhas comigo. Mas em público, vou fingir que sou normal, que é para evitar a fadiga.

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Do Caos à Crônica

A fonte da liberdade

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A liberdade plena existe apenas em nossa imaginação. Não temos jeito a dar. No silêncio caótico da nossa mente, podemos viver o que quisermos… Sem moralismo, proibicionismo… Tudo é possível! É na imaginação que mora o nosso “eu” mais autêntico.

Todos gostam da liberdade, certo? Na verdade, nem tanto. Todos gostam da ideia da liberdade; e desde que seja da sua própria, é claro! Afinal, estamos tão adaptados às prisões sociais, profissionais, afetivas, religiosas que não sobra tanto espaço para a tal liberdade.

Saberíamos criar uma vida livre? Desapegados de coisas, pessoas, poderes e status? Sem tabus? Sem muros? Deixo a minha imaginação fluir, fico em êxtase e tremo de medo. Afinal, a liberdade dá muito medo! Mas a prisão também dá…

No meu universo imaginário, não teríamos prisões, nem muros… Sabe aquela imagem do paraíso? Cada um provavelmente tem a sua. Mas a minha seria bem clichê mesmo… De um jardim interminável, bem florido, com lagos, animais e pessoas, todos em harmonia. Liberdade seria isso. Surreal? Talvez… Mas gosto assim.

A imaginação é a fonte da liberdade – a primeira, pelo menos. Imaginar alforria os nossos pensamentos mais enclausurados. Há tanta gente encarcerada por aí, e ficamos aqui aprisionando a nossa única manifestação humana genuinamente livre. Então, ao menos imagine… Mas não vou lhe dizer o que imaginar. Afinal, não serei eu a soberana dos seus pensamentos.

Por fim, uma ressalva: de tão livres, as nossas fantasias desconhecem limites. Isto é, tudo o que imaginamos pode se tornar real em algum tempo e espaço.

Então, desejo que a nossa imaginação seja nutrida de muita sabedoria e amor para semear paz e felicidade para todos nós.

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