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Notas Etílicas

Por mais jenipapos e menos blueberries no vinho

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Quando a gente frequenta as rodas de degustação ou cursos por aí, não é incomum ver
descrições de perfil aromático tipo essa:

– Um tinto frutado, com aromas pronunciados de groselha, amora, blueberry, cranberry e um
toque de violeta….

Ou ainda essa aqui:

– Um branco fresco e vibrante, com aromas intensos de grapefruit e elderflower…

Ambas usam descritores bem claros, mas apresentam alguns problemas. O primeiro deles – não o pior – é o uso do inglês para palavras que existem em português, tão em voga também no mercado corporativo e publicitário. Blueberry é mirtilo, cranberry é oxicoco (whaaat?!), grapefruit é toranja e a tal elderflower, pasme, é a flor de sabugueiro.

E ao descobrirmos o que essas palavras significam, nos deparamos de imediato com o segundo problema. Basta se debruçar brevemente sobre os aromas mais comuns dos vinhos tintos -preferência de onze em cada dez brasileiros – para perceber palavras recorrentes, como morango, framboesa, amora, ameixa, mirtilo, groselha e por aí vai…

Claro, porque no Brasil a gente come torta de mirtilo e iogurte com framboesa e amora todo dia no café da manhã, né darling? Com suco de grapefruit, of course!

Fica fácil entender porque tanta gente que começa a degustar vinhos fala: “aaaaai, não sinto cheiro de nada, só de vinho!”.

Os descritores aromáticos clássicos do mundo do vinho são europeus e nós moramos no Brasil, um país-tropical-abençoado-por-Deus-e-bonito-por-natureza-mas-que-beleza! Grapefruits e mirtilos não fazem parte do nosso repertório, nunca fizeram! Por isso mesmo, vinhos brancos com seus aromas de abacaxi, manga, maracujá, limão e maçã são tão mais fáceis pra gente identificar o que tem na taça. Quer acertar na mosca o aroma de um vinho? Compra um Sauvignon Blanc chileno e procura maracujá. Satisfação garantida ou seu dinheiro de volta.

Concordo que é super bacana conhecer novos aromas, ampliar nosso leque, sair cheirando de tudo nos mercados e por aí vai. Não tem nada de errado em querer conhecer o aroma da flor de sabugueiro (eu fui conseguir tem uns 2 meses) ou do alcaçuz. Isso só enriquece o degustador. Faz parte do estudo, principalmente de quem quer levar o vinho como profissão.

Mas também acho que cabe um convite a leigos e profissionais, eu incluso: por que não somarmos ao balaio a nossa memória olfativa, de aromas tão ricos quanto os dos gringos? Interpretar as frutas vermelhas azedinhas como acerolas e pitangas, acrescentar notas de umbu e cajá nos nossos vinhos brancos. Perceber que tem muito mais jenipapo e tamarindo num Vinho do Porto envelhecido do que qualquer fruta que eles tenham na Europa. Ah, se eles soubessem…

Temos um consumo per capita anual de aproximadamente 1,7 litros de vinho no Brasil, o que, além de ser muito pouco, é muito mal distribuído. Pessoas como eu ou você, leitor, certamente contribuem brutalmente para elevar essa média tão irrisória. Ter um vocabulário cheio de frutas europeias de delicatessen só contribui para perpetuar a imagem do vinho como uma bebida para poucos escolhidos, como o Enzo da minha primeira crônica. Consequentemente, o consumo permanece baixo. Vamos precisar de muito mais jenipapos e menos blueberries se quisermos fazer esse número crescer.

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Notas Etílicas

Enochatos

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Com um gesto amplo, quase teatral, Enzo gira sua taça de tinto em sentido anti-horário pela quadragésima vez em dez minutos. Em seguida, leva-a lentamente ao nariz, quase como um amante ávido se aproxima do toque de sua amada, fecha os olhos e inspira profundamente.

Após um suspiro, declara:

– Frutas vermelhas silvestres, um toque floral como os campos de lavanda da Provence na primavera e algo antigo, uma nota complexa, que me lembra o guarda roupas de minha avó…

Ao redor, na mesma vernissage, dezenas de pessoas de pé e sentadas em puffs têm taças do mesmo tinto nas mãos. Algumas seguram pela haste, outras pelo bojo. Conversam sobre inúmeros assuntos como arte, trabalho e, eventualmente, o vinho:

– Nossa, que delícia de tinto, hein?
– Super aromático e refrescante, né?

No entanto, provavelmente pouquíssimos presentes conhecem os campos de lavanda da Provence na primavera e, definitivamente, nenhum deles cheirou o guarda roupas da avó de Enzo. Clarice, desafortunada interlocutora de nosso anti-herói, que não conhece a lavanda da Provence na primavera nem o guarda roupas de dona Magnólia, franze o cenho e pergunta:

– Como você consegue sentir tudo isso nesta taça?

Ele, orgulhoso, enche o peito e responde de imediato:

– São as moléculas do vinho, baby. Tem que estudar e treinar muito para sentir isso…

E corta!

Apesar de ter dito duas verdades sobre o vinho, Enzo fez apenas um curso introdutório de três horas para curiosos sobre vinhos e não saberia explicar o que é uma molécula a um estudante de escola primária. E não, ele não teria conseguido beijar Clarice se esta cena tivesse continuado, o que provavelmente era seu objetivo. Na verdade, dois minutos depois ela pediu licença para ir ao banheiro e nunca mais voltou.

Pessoas que agem desta maneira têm um nome e uma fama no mundo do vinho: enochatos. Ávidos por demostrar conhecimento – que nem sempre possuem de fato – eles ignoram o bom senso e, toda vez que há taças na mão, tentam conduzir o eixo da conversa para o vinho, mesmo que as pessoas queiram desesperadamente apenas criticar o final de Game of Thrones.

Corrigem o jeito de segurar a taça do cunhado, criticam a escolha de comida da esposa porque não harmoniza com o Pinot Noir, falam maravilhas de vinhos caríssimos que nunca beberam e sempre, sempre fazem uma nota de degustação completa em voz alta na mesa de jantar, como se todos ao redor estivessem muito interessados nas notas de alcatrão que ele encontrou.

Nesta hora você deve estar rindo à beça ou com nojinho do Enzo porque ele te lembrou algum conhecido, mas não se engane, você possivelmente já foi ou será uma destas pessoas se/quando começar a estudar vinhos. Todos nós, quando nos apaixonamos por um assunto, ficamos deslumbrados em um primeiro momento e queremos dividir com o mundo nossa empolgação, afinal, aquilo é tão legal!

Na maioria das pessoas, esta súbita embriaguez logo dá lugar à sobriedade e ressaca moral e assim voltamos a nos comportar como seres humanos normais. O problema mora na pequena parcela de pessoas que assumem a “enochatice” para si como estilo de vida e vai para além de serem pessoas socialmente desagradáveis:

– Elas perpetuam a ideia do vinho como algo inacessível, elitista, intangível aos meros mortais, o que é terrível em um país onde ainda se bebe tão pouco vinho como o Brasil.

– Elas frequentemente reproduzem mitos e ideias equivocadas sobre o vinho, espalhando conhecimento ruim em um campo do conhecimento que já é bastante nebuloso para o grande público.

– E, claro…o Enzo nunca vai conquistar a Clarice!

Por isso, caro amigo, cuidemos sempre para não sermos esta pessoa. É muito fácil encontrá-la no outro mas, um belo dia, após girar a taça em sentido anti-horário pela quadragésima vez em dez minutos e ter mandado todas as moléculas de aroma pras cucuias com isso, ao falar das notas de couro da sela do cavalo que montávamos quando crianças, talvez percebamos, em nós mesmos, Enzo, o Enochato.

NOTA DO AUTOR: Minhas sinceras desculpas a todos os Enzos que lerem esta pequena crônica. Substituam vossos nomes por Alexandre e divirtam-se às minhas custas. Saúde!

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