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Do Caos à Crônica

Chega de lembrar de você

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Seja pelo que for, o desejo é excruciante. Seja por felicidade, dinheiro, bebida, comida, farra, drogas, sexo e rock n’ roll… Ele te consome quimicamente. Mas parece que quando o desejo é por alguém, ele transcende a química e os pensamentos para despertar os mais intensos sentimentos. Ele inflama uma saudade pungente que não te deixa sorrir naturalmente.

Parece uma autotortura… Você se questiona “Porque estou pensando tanto nele? Preciso esquecê-lo!”. Você fica nessa angústia, sem saber quando e como essas memórias dissipar-se-ão. E é cruel, porque não há previsão alguma.

Então você percebe que só há um jeito a dar: seguir vivendo, caminhando. Já o caminho, sim: há diversos a optar. São tantos e tantos que não convém uma paralisia em função desses desejos agonizantes. Desta forma, podemos mergulhar rumo a novas aventuras e colher frescas memórias para renovarmos o nosso arsenal de pessoas desejáveis. Porque não tentar, afinal?

O tempo tem se mostrado tão ligeiro… Apressado demais para os meus desejos nostálgicos e desarranjados. Eu sinto… Sinto até o coração chamejar. E então grito “Chega!”. E dou um basta a essa melancolia. Aperto o meu passo, porque necessito saborear todo lampejo de vida com que fui presenteada.

E então chega de desejar quem não está mais aqui… Aquele alguém que faz a minha face se contorcer involuntariamente. Chega dessa dor! Então, assino a minha alforria. Lanço-me ao vasto horizonte de todas as memórias vindouras – misteriosamente diferentes. E disparo-me, empolgada, nesse mar de possibilidades que é o viver.

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6 Comentários

6 Comments

  1. ANA FERRER

    25 de novembro de 2019 em 11:48

    Leitura forte !! QUEM SERÁ ? bjs

  2. Maria das Graças Pimentel Sá

    25 de novembro de 2019 em 14:48

    Parabéns e muito sucesso com suas crônicas sensacionais!
    👏🏻👏🏻👏🏻👏🏻👏🏻👏🏻👏🏻

  3. Marcelo

    26 de novembro de 2019 em 09:35

    Uma crônica melhor que a outra… mas essa representa! Lindíssima e reflexiva.

    • Fernanda Sá

      26 de novembro de 2019 em 10:55

      Fico muito feliz que tenha gostado, Marcelo! Grande abraço!

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Do Caos à Crônica

Retrospectiva

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Hoje escrevi os agradecimentos da minha Dissertação do Mestrado. Embora esse tópico fique bem no início do trabalho, foi o que eu redigi por último, faltando apenas um mês para agendar a defesa pública. E isso foi bom, porque ao escrever no final do curso, pude olhar para esses dois anos e observar quem realmente esteve ao meu lado em todos os momentos. Algumas pessoas que estavam no início, sumiram como pó. Outras apareceram no meio e evaporaram assim que as coisas complicaram. E, para a minha sorte, uns indivíduos, raçudos e extraordinários, se mantiveram firmes ao meu lado até o final.

Foram dois anos intensos, difíceis, e muito emocionantes. Teve muito choro – de alegria e de aflição também. Se teve angústia? Teve, sim, e como teve! Mas, no fim, tudo se resolveu… E essa pesquisa já está gerando belos frutos. Mas não vim falar da pesquisa, do Mestrado e nem desses frutos, mas sim de quando eu estava escrevendo o tal agradecimento.

Atualmente, o ato de “escrever” recebe a medalha de bronze na minha vida, perdendo apenas para o de “respirar” e o de “falar”. Ainda assim, esse agradecimento me tirou o chão… Foi uma verdadeira rasteira de capoeirista! Fiquei complemente emocionada! Foi lindo, indescritível! Chorei de emoção… Mas foi um choro bom e feliz. Já falei aqui que sou chorona? Pois é… Eu sou um bocadinho.

Lembrei-me dos momentos mais marcantes desses dois anos, das pessoas mais significativas, das experiências que mais me acrescentaram. Senti felicidade, amor e gratidão. E uma sensação de que “tudo vai dar certo” me preencheu instantaneamente.

Fui tomada por uma certeza: tudo muda o tempo todo. Um dia você sente que o mundo caiu e, no ano seguinte, ao lembrar da situação, você chega ri! Porque já passou! Tudo se resolveu. Pessoas vêm e vão, passamos por altos e baixos e, com o tempo, as coisas se ajustam.

Percebi outra coisa… Quem realmente lhe ama, estará ao seu lado. Por isso, sugiro ao leitor que faça esse exercício de retrospectiva e de agradecimento. “Ah, Fernanda, você quer que eu chore?”. É um choro bom, acredite! Há lágrimas que lavam a alma e renovam a nossa fé na vida.

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Do Caos à Crônica

O resto é só firula

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Ontem fui tomar um café numa dessas casas de chá e, como de costume quando estou só, fiquei observando as pessoas – esse é um dos meus passatempos favoritos. Intercalo os meus olhares curiosos com uma leitura, uma escrita, ou mexo no celular, até para que ninguém fique onstrangido.

Para o meu deleite, surgiu uma figura interessantíssima. Na verdade, em menor grau, era uma figura até comum. Explico-me, ela era uma mulher jovem, muito elegante, com unhas e cabelos impecáveis, roupa chique, toda maquiada. A primeira coisa que pensei ao vê-la foi: capa de revista!

Continuei a observá-la discretamente – eu estava quase uma investigadora da Interpol. Notei que ela aguardava por alguém, pois não conseguia desfrutar da própria companhia. Aos poucos, eu não conseguia mais enxergar deslumbre naquela moça. Ela era linda e estava tão arrumada, o que houve? A observei um pouco mais e entendi o motivo: ela não confiava nela mesma. Senti vontade de oferecer uma conversa das boas, daquelas que traz a pessoa para a realidade… Mas me lembrei eu estava bancando a agente secreta naquele momento.

Uma mulher segura não tem a ver com unhas de porcelana, maquiagem perfeita, cabelo modelado, corpo sarado, nem com roupas da estação. Tudo isso agrega valor, é claro. Quem não fica um espetáculo com esse somatório de atributos? Mas tudo isso é firula! Após o primeiro impacto, se não houver a autoconfiança, você percebe que algo está faltando.

Como qualquer pessoa, uma mulher segura tem insatisfações, vaidades e metas, mas isso não a impede de se amar, porque ela sabe do próprio valor. Ela sabe que é uma mulher incrível pelas atitudes que tem, pela forma com que se posiciona no mundo, e por tudo o que acredita.

Você percebe uma mulher segura pela forma com que ela anda, que ela fala, e que até se poupa de falar. Você a nota pelas escolhas… Pela sabedoria de cadasim e de cada não, porque ela tem uma combinação fascinante: inteligência emocional e amor-próprio.

Ela sabe – como dois mais dois são quatro – que um sorriso sincero, uma gargalhada contagiante, um olhar penetrante, uma conversa agradável valem muito mais do que qualquer maquiagem impecável. Ela sabe que o jeito dela é enebriante… E que o resto é só firula.

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Do Caos à Crônica

Monstros e fadas

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Já notaram esse nosso hábito de julgar as pessoas em boas e más? É algo tão natural, tão automático, não é? E a gente erra toda vez. E isso é diferente de outras habilidades, porque quanto mais você pratica, mais você erra. Não adianta insistir. Porque, veja, ‘bom’ e ‘mau’, sempre será uma questão de perspectiva.

João é um empresário bem-sucedido, um patrão compreensivo, e é carinhoso com a namorada. No entanto, ele não registrou o próprio filho. A criança não tem contato com o pai e não recebe pensão. João é bom ou mau?

Ana Cláudia é uma mãe dedicada, uma filha zelosa com seus pais idosos, uma esposa fiel e amorosa. Mas Ana furta produtos de lojas. Ana Cláudia é boa ou má?

“Nossa, que monstro!”, quem nunca disse isso? Ou “Fulana é um anjo!”. Olha, sinto muito, mas anjos e demônios eu nunca vi! Fadas e monstros só vi nos meus sonhos e pesadelos mais criativos, elaborados pela liberdade da minha própria mente.

Nas minhas andanças prisionais, conheci muitas pessoas… As enxerguei sob as múltiplas perspectivas. Mas, inevitavelmente, todas que ali estão, foram julgadas como más pela justiça e como monstros pela sociedade.

O que eu posso lhe dizer? Estamos demonizando pessoas… Estamos desumanizando o outro e, assim, esquecendo a semelhança primordial e mais avassaladora entre você e eu: a nossa espécie. Não há monstros, nem anjos, nem fadas… Somos todos humanos.

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