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Notas Etílicas

Enochatos

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Com um gesto amplo, quase teatral, Enzo gira sua taça de tinto em sentido anti-horário pela quadragésima vez em dez minutos. Em seguida, leva-a lentamente ao nariz, quase como um amante ávido se aproxima do toque de sua amada, fecha os olhos e inspira profundamente.

Após um suspiro, declara:

– Frutas vermelhas silvestres, um toque floral como os campos de lavanda da Provence na primavera e algo antigo, uma nota complexa, que me lembra o guarda roupas de minha avó…

Ao redor, na mesma vernissage, dezenas de pessoas de pé e sentadas em puffs têm taças do mesmo tinto nas mãos. Algumas seguram pela haste, outras pelo bojo. Conversam sobre inúmeros assuntos como arte, trabalho e, eventualmente, o vinho:

– Nossa, que delícia de tinto, hein?
– Super aromático e refrescante, né?

No entanto, provavelmente pouquíssimos presentes conhecem os campos de lavanda da Provence na primavera e, definitivamente, nenhum deles cheirou o guarda roupas da avó de Enzo. Clarice, desafortunada interlocutora de nosso anti-herói, que não conhece a lavanda da Provence na primavera nem o guarda roupas de dona Magnólia, franze o cenho e pergunta:

– Como você consegue sentir tudo isso nesta taça?

Ele, orgulhoso, enche o peito e responde de imediato:

– São as moléculas do vinho, baby. Tem que estudar e treinar muito para sentir isso…

E corta!

Apesar de ter dito duas verdades sobre o vinho, Enzo fez apenas um curso introdutório de três horas para curiosos sobre vinhos e não saberia explicar o que é uma molécula a um estudante de escola primária. E não, ele não teria conseguido beijar Clarice se esta cena tivesse continuado, o que provavelmente era seu objetivo. Na verdade, dois minutos depois ela pediu licença para ir ao banheiro e nunca mais voltou.

Pessoas que agem desta maneira têm um nome e uma fama no mundo do vinho: enochatos. Ávidos por demostrar conhecimento – que nem sempre possuem de fato – eles ignoram o bom senso e, toda vez que há taças na mão, tentam conduzir o eixo da conversa para o vinho, mesmo que as pessoas queiram desesperadamente apenas criticar o final de Game of Thrones.

Corrigem o jeito de segurar a taça do cunhado, criticam a escolha de comida da esposa porque não harmoniza com o Pinot Noir, falam maravilhas de vinhos caríssimos que nunca beberam e sempre, sempre fazem uma nota de degustação completa em voz alta na mesa de jantar, como se todos ao redor estivessem muito interessados nas notas de alcatrão que ele encontrou.

Nesta hora você deve estar rindo à beça ou com nojinho do Enzo porque ele te lembrou algum conhecido, mas não se engane, você possivelmente já foi ou será uma destas pessoas se/quando começar a estudar vinhos. Todos nós, quando nos apaixonamos por um assunto, ficamos deslumbrados em um primeiro momento e queremos dividir com o mundo nossa empolgação, afinal, aquilo é tão legal!

Na maioria das pessoas, esta súbita embriaguez logo dá lugar à sobriedade e ressaca moral e assim voltamos a nos comportar como seres humanos normais. O problema mora na pequena parcela de pessoas que assumem a “enochatice” para si como estilo de vida e vai para além de serem pessoas socialmente desagradáveis:

– Elas perpetuam a ideia do vinho como algo inacessível, elitista, intangível aos meros mortais, o que é terrível em um país onde ainda se bebe tão pouco vinho como o Brasil.

– Elas frequentemente reproduzem mitos e ideias equivocadas sobre o vinho, espalhando conhecimento ruim em um campo do conhecimento que já é bastante nebuloso para o grande público.

– E, claro…o Enzo nunca vai conquistar a Clarice!

Por isso, caro amigo, cuidemos sempre para não sermos esta pessoa. É muito fácil encontrá-la no outro mas, um belo dia, após girar a taça em sentido anti-horário pela quadragésima vez em dez minutos e ter mandado todas as moléculas de aroma pras cucuias com isso, ao falar das notas de couro da sela do cavalo que montávamos quando crianças, talvez percebamos, em nós mesmos, Enzo, o Enochato.

NOTA DO AUTOR: Minhas sinceras desculpas a todos os Enzos que lerem esta pequena crônica. Substituam vossos nomes por Alexandre e divirtam-se às minhas custas. Saúde!

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2 Comentários

2 Comments

  1. Franklin

    22 de novembro de 2019 em 21:37

    Um brinde ao Enzo que, provavelmente, já existiu em cada um de nós! Parabéns, Alexandre!

    • Alexandre Takei

      22 de novembro de 2019 em 22:29

      Um brinde a ele e que, de de preferência, descanse em paz! 🙂

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Dicas e impressões de um viajante sobre Mendoza e seus vinhos

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Estive em Mendoza no final de 2019 em lua de mel antecipada – a qual eu espertamente direcionei para uma região produtora de vinhos – e me deparei com uma cena completamente diferente do que conhecemos aqui no Brasil. Confira algumas das minhas impressões!

1 – O sol é absurdo no verão, a ponto de parecer que os raios perfuram sua pele. Ah, e só anoitece perto das 21 horas. Isso é ótimo pra amadurecer bem as uvas daquele Malbec super potente! Mas pra você, caro viajante…use filtro solar!

2 – Água é uma questão crucial para o vinho mendoncino. Lá é absurdamente seco e até as cidades possuem canaletas para captar e aproveitar água na irrigação das árvores da cidade. A produção de vinhos depende diretamente de irrigação artificial.

3 – Vários produtores já entraram na moda de fermentar vinhos tintos em ovos de concreto, sem nenhum estágio em madeira. É um estilo mais fresco e vivaz, que super vale a pena conhecer.

4 – O Malbec é sensacional, mas você não precisa sair do Brasil para provar grande parte deles. Quando for beber um, mire em exemplares mais premium, que seriam difíceis de comprar por essas bandas.

5 – O vinho argentino vai MUITO além da Malbec! Você precisa provar os Cabernet Franc, Cabernet Sauvignon, Bonarda, Criolla Chica, Trousseau, Sangiovese e outros inúmeros tintos super diferentes e sensacionais, alguns difíceis ou impossíveis de achar no Brasil!

6 – Por falar em coisas diferentes, você também PRECISA provar os vinhos brancos de lá! Foram o que mais me impressionou! Destaque pra excelentes exemplares de Sémillon e Viognier. Mas até uvas italianas como Fiano ou Friulano dá achar, garimpando bem. Mais uma vez: quando em Mendoza, tente provar o que você não acha por aqui.

7 – Agora, com o câmbio a mais ou menos 14 – 14,5 pesos pra um real, tá um momento excelente pra ir pra lá, comer bem e voltar com as malas cheias de vinho! Se puder, aproveite!

Foto: Wines of Argentina

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Venham rápido, estou bebendo estrelas!

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“Venham rápido, estou bebendo estrelas”!

Possivelmente você já ouviu esta frase, emoldurada em uma romântica história sobre como um monge beneditino do século XVII chamado Dom Pérignon descobriu, por acaso e maravilhado, que seu vinho tinha acidentalmente gerado bolhas, hoje tão celebradas nos brindes de final de ano.

Ou talvez você conheça apenas a Champagne Dom Pérignon, clássica presença nos filmes de James Bond e nos sonhos eno-eróticos de qualquer apreciador das nobres borbulhas. Neste caso, saiba que ela foi nomeada em homenagem ao monge supracitado, a quem, por sua vez, é frequentemente creditada a criação do Champagne e, consequentemente, todos os demais espumantes.

Duas questões a esclarecer aqui:

A primeira é que Champagne NÃO FOI o primeiro espumante! Aproximadamente 150 anos antes, monges beneditinos na abadia de St. Hilaire criaram (ou descobriram acidentalmente) o espumante mais antigo de que se tem notícia, chamado Blanquette de Limoux, no sul da França. Este pioneiro borbulhante segue sendo feito até hoje, mas do ponto de vista mercadológico é uma nota de rodapé de curiosidade na história do Champagne.

A segunda:

Os espumantes na Champagne surgiram por acidente. Como a região é muito fria, no outono o vinho parava de fermentar ainda com açúcar residual. Os produtores, pensando que a bebida estava pronta, engarrafavam o produto. Durante a primavera, com a alta de temperatura, a fermentação era retomada, gerando mais álcool e gás. A pressão estourava várias garrafas e as que resistiam continham bolhas. Pasme, elas eram consideradas um defeito!

E, pasme ainda mais, uma das missões do Dom Pérignon, chefe da adega da abadia de Hautvillers, era eliminar este “defeito”, não “beber estrelas”. O fato é que, antes das borbulhas, Champagne era muito mais conhecida por ser um polo de intenso comércio com uma forte indústria têxtil do que por seu vinho.

Graças a todos os Deuses, com o tempo a moda das borbulhas pegou e a região francesa delineou um estilo que mudou o mundo do vinho. Hoje é possível beber estrelas de alto nível não só de Champagne, mas da Espanha, Itália, Portugal e todos os países produtores do Novo Mundo, incluindo o Brasil, que cada vez se destaca pela qualidade de suas borbulhas!

E você, vai brindar o final do ano com o que?

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Por mais jenipapos e menos blueberries no vinho

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Quando a gente frequenta as rodas de degustação ou cursos por aí, não é incomum ver
descrições de perfil aromático tipo essa:

– Um tinto frutado, com aromas pronunciados de groselha, amora, blueberry, cranberry e um
toque de violeta….

Ou ainda essa aqui:

– Um branco fresco e vibrante, com aromas intensos de grapefruit e elderflower…

Ambas usam descritores bem claros, mas apresentam alguns problemas. O primeiro deles – não o pior – é o uso do inglês para palavras que existem em português, tão em voga também no mercado corporativo e publicitário. Blueberry é mirtilo, cranberry é oxicoco (whaaat?!), grapefruit é toranja e a tal elderflower, pasme, é a flor de sabugueiro.

E ao descobrirmos o que essas palavras significam, nos deparamos de imediato com o segundo problema. Basta se debruçar brevemente sobre os aromas mais comuns dos vinhos tintos -preferência de onze em cada dez brasileiros – para perceber palavras recorrentes, como morango, framboesa, amora, ameixa, mirtilo, groselha e por aí vai…

Claro, porque no Brasil a gente come torta de mirtilo e iogurte com framboesa e amora todo dia no café da manhã, né darling? Com suco de grapefruit, of course!

Fica fácil entender porque tanta gente que começa a degustar vinhos fala: “aaaaai, não sinto cheiro de nada, só de vinho!”.

Os descritores aromáticos clássicos do mundo do vinho são europeus e nós moramos no Brasil, um país-tropical-abençoado-por-Deus-e-bonito-por-natureza-mas-que-beleza! Grapefruits e mirtilos não fazem parte do nosso repertório, nunca fizeram! Por isso mesmo, vinhos brancos com seus aromas de abacaxi, manga, maracujá, limão e maçã são tão mais fáceis pra gente identificar o que tem na taça. Quer acertar na mosca o aroma de um vinho? Compra um Sauvignon Blanc chileno e procura maracujá. Satisfação garantida ou seu dinheiro de volta.

Concordo que é super bacana conhecer novos aromas, ampliar nosso leque, sair cheirando de tudo nos mercados e por aí vai. Não tem nada de errado em querer conhecer o aroma da flor de sabugueiro (eu fui conseguir tem uns 2 meses) ou do alcaçuz. Isso só enriquece o degustador. Faz parte do estudo, principalmente de quem quer levar o vinho como profissão.

Mas também acho que cabe um convite a leigos e profissionais, eu incluso: por que não somarmos ao balaio a nossa memória olfativa, de aromas tão ricos quanto os dos gringos? Interpretar as frutas vermelhas azedinhas como acerolas e pitangas, acrescentar notas de umbu e cajá nos nossos vinhos brancos. Perceber que tem muito mais jenipapo e tamarindo num Vinho do Porto envelhecido do que qualquer fruta que eles tenham na Europa. Ah, se eles soubessem…

Temos um consumo per capita anual de aproximadamente 1,7 litros de vinho no Brasil, o que, além de ser muito pouco, é muito mal distribuído. Pessoas como eu ou você, leitor, certamente contribuem brutalmente para elevar essa média tão irrisória. Ter um vocabulário cheio de frutas europeias de delicatessen só contribui para perpetuar a imagem do vinho como uma bebida para poucos escolhidos, como o Enzo da minha primeira crônica. Consequentemente, o consumo permanece baixo. Vamos precisar de muito mais jenipapos e menos blueberries se quisermos fazer esse número crescer.

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