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Do Caos à Crônica

Pistola? Eu?

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O vocabulário baiano é sensacional, não? É um dialeto próprio, tão cheio de identidade, criatividade e sonoridade. Ônibus é buzú, calçada é passeio, pão francês é cacetinho… Temos um jeito nosso de dizer as coisas! E a nossa ironia deixa qualquer turista de cabelo em pé! Quando o baiano quer apressar alguém, ele diz “Vá logo não, fique aí…”, num tom tão debochado que os forasteiros ficam completamente confusos “Mas então, é pra ir, ou pra ficar?”.

O nosso baianês é vasto e se mantém em constante evolução. Até eu, nascida e criada em Salvador, sou surpreendida com expressões idiomáticas que desconheço. Complica mais ainda quando inventam de usar gírias de outros lugares.

Outro dia, por mensagem de texto, um rapaz me disse “você ficou pistola”. Eu cá pensei: “Diabeísso, homi? Pistola?”. Quase respondi: “Não uso… Sou contra a violência…”. Tive que fazer uma pesquisa sobre a expressão para entender o que ele estava querendo dizer.7

Não sei se é verdade, mas parece que essa gíria ficou famosa quando começou a ser usada por um apresentador de TV (está explicada a razão do meu desconhecimento). Algumas fontes dizem que a expressão provém de um filme, outras dizem que vem de um jogo… Enfim, o que importa é que ela existe e significa que a pessoa ficou brava!

Logo eu? Eu sou zen! Zen paciência! Aqui na minha terra, a gente diz que a pessoa ficou retada! E se pronuncia com aquele “e” bem aberto, bem nordestino, do jeito que eu gosto! Meu amigo, eu sou da paz, mas fale “pistola” mais uma vez para você ver se eu não encarno a Maria Bonita!

Pois bem… Essas gírias deveriam vir com um recurso de interpretação simultânea, não é? A tecnologia já tão avançada e ainda não pensaram nisso. Então eu fico aqui passando aperto por causa das expressões idiomáticas dos outros. “Ficou pistola…”. Depois não reclamem quando eu entrar pocando com o meu baianês!

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4 Comentários

4 Comments

  1. ANA FERRER

    18 de novembro de 2019 em 22:13

    Adorei Nanda!Divertido.bjsss

    • Fernanda Sá

      19 de novembro de 2019 em 16:24

      Que bom que gostou, Ana! Beijos!

    • Maria das das Graças Pimentel Sá

      25 de novembro de 2019 em 07:41

      Sua crônica é sensacional, prende o leitor até o final com o interesse do início. Amei!!!
      Parabéns e muito sucesso!! 👏🏻👏🏻👏🏻👏🏻

      • Anair

        4 de dezembro de 2019 em 05:54

        Muito legal a crônica sobre o baianês. Escrita, leve, engraçada, prende atenção até o fim trazendo um aprendizado de expressões presentes no dia a dia de muitos, mas desconhecidas por tantos. “Ficou pistola”….Kkkkk. Parabéns Nanda. 😘

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Do Caos à Crônica

Retrospectiva

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Hoje escrevi os agradecimentos da minha Dissertação do Mestrado. Embora esse tópico fique bem no início do trabalho, foi o que eu redigi por último, faltando apenas um mês para agendar a defesa pública. E isso foi bom, porque ao escrever no final do curso, pude olhar para esses dois anos e observar quem realmente esteve ao meu lado em todos os momentos. Algumas pessoas que estavam no início, sumiram como pó. Outras apareceram no meio e evaporaram assim que as coisas complicaram. E, para a minha sorte, uns indivíduos, raçudos e extraordinários, se mantiveram firmes ao meu lado até o final.

Foram dois anos intensos, difíceis, e muito emocionantes. Teve muito choro – de alegria e de aflição também. Se teve angústia? Teve, sim, e como teve! Mas, no fim, tudo se resolveu… E essa pesquisa já está gerando belos frutos. Mas não vim falar da pesquisa, do Mestrado e nem desses frutos, mas sim de quando eu estava escrevendo o tal agradecimento.

Atualmente, o ato de “escrever” recebe a medalha de bronze na minha vida, perdendo apenas para o de “respirar” e o de “falar”. Ainda assim, esse agradecimento me tirou o chão… Foi uma verdadeira rasteira de capoeirista! Fiquei complemente emocionada! Foi lindo, indescritível! Chorei de emoção… Mas foi um choro bom e feliz. Já falei aqui que sou chorona? Pois é… Eu sou um bocadinho.

Lembrei-me dos momentos mais marcantes desses dois anos, das pessoas mais significativas, das experiências que mais me acrescentaram. Senti felicidade, amor e gratidão. E uma sensação de que “tudo vai dar certo” me preencheu instantaneamente.

Fui tomada por uma certeza: tudo muda o tempo todo. Um dia você sente que o mundo caiu e, no ano seguinte, ao lembrar da situação, você chega ri! Porque já passou! Tudo se resolveu. Pessoas vêm e vão, passamos por altos e baixos e, com o tempo, as coisas se ajustam.

Percebi outra coisa… Quem realmente lhe ama, estará ao seu lado. Por isso, sugiro ao leitor que faça esse exercício de retrospectiva e de agradecimento. “Ah, Fernanda, você quer que eu chore?”. É um choro bom, acredite! Há lágrimas que lavam a alma e renovam a nossa fé na vida.

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Do Caos à Crônica

O resto é só firula

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Ontem fui tomar um café numa dessas casas de chá e, como de costume quando estou só, fiquei observando as pessoas – esse é um dos meus passatempos favoritos. Intercalo os meus olhares curiosos com uma leitura, uma escrita, ou mexo no celular, até para que ninguém fique onstrangido.

Para o meu deleite, surgiu uma figura interessantíssima. Na verdade, em menor grau, era uma figura até comum. Explico-me, ela era uma mulher jovem, muito elegante, com unhas e cabelos impecáveis, roupa chique, toda maquiada. A primeira coisa que pensei ao vê-la foi: capa de revista!

Continuei a observá-la discretamente – eu estava quase uma investigadora da Interpol. Notei que ela aguardava por alguém, pois não conseguia desfrutar da própria companhia. Aos poucos, eu não conseguia mais enxergar deslumbre naquela moça. Ela era linda e estava tão arrumada, o que houve? A observei um pouco mais e entendi o motivo: ela não confiava nela mesma. Senti vontade de oferecer uma conversa das boas, daquelas que traz a pessoa para a realidade… Mas me lembrei eu estava bancando a agente secreta naquele momento.

Uma mulher segura não tem a ver com unhas de porcelana, maquiagem perfeita, cabelo modelado, corpo sarado, nem com roupas da estação. Tudo isso agrega valor, é claro. Quem não fica um espetáculo com esse somatório de atributos? Mas tudo isso é firula! Após o primeiro impacto, se não houver a autoconfiança, você percebe que algo está faltando.

Como qualquer pessoa, uma mulher segura tem insatisfações, vaidades e metas, mas isso não a impede de se amar, porque ela sabe do próprio valor. Ela sabe que é uma mulher incrível pelas atitudes que tem, pela forma com que se posiciona no mundo, e por tudo o que acredita.

Você percebe uma mulher segura pela forma com que ela anda, que ela fala, e que até se poupa de falar. Você a nota pelas escolhas… Pela sabedoria de cadasim e de cada não, porque ela tem uma combinação fascinante: inteligência emocional e amor-próprio.

Ela sabe – como dois mais dois são quatro – que um sorriso sincero, uma gargalhada contagiante, um olhar penetrante, uma conversa agradável valem muito mais do que qualquer maquiagem impecável. Ela sabe que o jeito dela é enebriante… E que o resto é só firula.

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Do Caos à Crônica

Monstros e fadas

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Já notaram esse nosso hábito de julgar as pessoas em boas e más? É algo tão natural, tão automático, não é? E a gente erra toda vez. E isso é diferente de outras habilidades, porque quanto mais você pratica, mais você erra. Não adianta insistir. Porque, veja, ‘bom’ e ‘mau’, sempre será uma questão de perspectiva.

João é um empresário bem-sucedido, um patrão compreensivo, e é carinhoso com a namorada. No entanto, ele não registrou o próprio filho. A criança não tem contato com o pai e não recebe pensão. João é bom ou mau?

Ana Cláudia é uma mãe dedicada, uma filha zelosa com seus pais idosos, uma esposa fiel e amorosa. Mas Ana furta produtos de lojas. Ana Cláudia é boa ou má?

“Nossa, que monstro!”, quem nunca disse isso? Ou “Fulana é um anjo!”. Olha, sinto muito, mas anjos e demônios eu nunca vi! Fadas e monstros só vi nos meus sonhos e pesadelos mais criativos, elaborados pela liberdade da minha própria mente.

Nas minhas andanças prisionais, conheci muitas pessoas… As enxerguei sob as múltiplas perspectivas. Mas, inevitavelmente, todas que ali estão, foram julgadas como más pela justiça e como monstros pela sociedade.

O que eu posso lhe dizer? Estamos demonizando pessoas… Estamos desumanizando o outro e, assim, esquecendo a semelhança primordial e mais avassaladora entre você e eu: a nossa espécie. Não há monstros, nem anjos, nem fadas… Somos todos humanos.

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