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Do Caos à Crônica

Antídoto contra a cegueira

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Sou baiana e encho o peito para dizer isso! Sou de Salvador, uma cidade cheia de cores, sabores, ritmos, crenças, magias e riquezas naturais. É muita cultura e beleza num só lugar!

É natural que pensemos no Farol da Barra, nas belas igrejas, na vista do alto do Elevador Lacerda para a Baía de Todos os Santos… Eu até suspiro ao pensar nesses lugares de Salvador… E concordo instantaneamente quando elogiam a nossa cidade. Outro dia eu estava num seminário quando disseram: “Salvador é muito bonita!”. E é mesmo, não é?

Foi forte quando um rapaz pediu a palavra ao final e perguntou: “Bonita para quem?”. Essas palavras foram como uma flecha contendo um antídoto contra a cegueira, trazendo todos os presentes à realidade. E ele continuou: “De onde eu – negro, pobre, morador de rua – a vejo, essa cidade é horrível!”.

Quando, por alguns segundos, ignoramos a crescente desigualdade e as mazelas sociais, e focamos apenas nas paisagens naturais, construções históricas e diversidade cultural, Salvador é muito linda, meu senhor!

Vocês acham mesmo que alguém diria isso ao rapaz? Qualquer explicação não reduziria em nada a angústia e a frustração que ele sentia, além de não ser o tipo de resposta que ele merecia receber. Inclusive, porque palavras jamais bastariam nesse caso. Qualquer apologia à cidade chegaria desconexa aos ouvidos dele. Seria até cruel.

Mas o Farol da Barra continua lá… Então, caso você deseje ver uma cidade meramente bonita, basta desviar o olhar dos que morrem de fome e dos que pedem socorro. Desta forma, ignorando os sofrimentos humanos, você continuará vendo a belíssima Salvador de sempre. Apenas tenha cuidado para não tropeçar no que – ou em quem – você não vê.

Alerta final: Após ouvir uma dor como essa e ser flechado com o antídoto contra a cegueira, torna-se impossível chamar de bela uma cidade sem lembrar das suas mazelas.

Você já consegue vê-los?

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8 Comentários

8 Comments

  1. Luís

    4 de novembro de 2019 em 09:31

    Adorei o novo tema, Fernanda!

    • Fernanda Sá

      4 de novembro de 2019 em 17:46

      Obrigada, Luís!

  2. Talita

    4 de novembro de 2019 em 11:04

    Infelizmente, é nossa realidade

    • Fernanda Sá

      4 de novembro de 2019 em 17:46

      Triste realidade.

  3. ANA FERRER

    4 de novembro de 2019 em 12:38

    Essa é uma realidade visível

    • Fernanda Sá

      4 de novembro de 2019 em 17:48

      É preciso que seja visível, sim!

  4. Anair

    6 de novembro de 2019 em 06:30

    Sou apaixonada por essa linda cidade que tomei como minha… O contraste da beleza com a realidade social é um fato. Não tem como nos esquivar passando por sinaleiras, viadutos, ruas … É evidente, real e triste… Que o futuro traga novas perspectivas para melhorar a vida dessas pessoas e que elas possam desvendar a beleza do viver. Adorei a crônica Nanda. Parabens😘

    • Fernanda Sá

      7 de novembro de 2019 em 13:09

      Obrigada, Anair!

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Do Caos à Crônica

Pistola? Eu?

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O vocabulário baiano é sensacional, não? É um dialeto próprio, tão cheio de identidade, criatividade e sonoridade. Ônibus é buzú, calçada é passeio, pão francês é cacetinho… Temos um jeito nosso de dizer as coisas! E a nossa ironia deixa qualquer turista de cabelo em pé! Quando o baiano quer apressar alguém, ele diz “Vá logo não, fique aí…”, num tom tão debochado que os forasteiros ficam completamente confusos “Mas então, é pra ir, ou pra ficar?”.

O nosso baianês é vasto e se mantém em constante evolução. Até eu, nascida e criada em Salvador, sou surpreendida com expressões idiomáticas que desconheço. Complica mais ainda quando inventam de usar gírias de outros lugares.

Outro dia, por mensagem de texto, um rapaz me disse “você ficou pistola”. Eu cá pensei: “Diabeísso, homi? Pistola?”. Quase respondi: “Não uso… Sou contra a violência…”. Tive que fazer uma pesquisa sobre a expressão para entender o que ele estava querendo dizer.7

Não sei se é verdade, mas parece que essa gíria ficou famosa quando começou a ser usada por um apresentador de TV (está explicada a razão do meu desconhecimento). Algumas fontes dizem que a expressão provém de um filme, outras dizem que vem de um jogo… Enfim, o que importa é que ela existe e significa que a pessoa ficou brava!

Logo eu? Eu sou zen! Zen paciência! Aqui na minha terra, a gente diz que a pessoa ficou retada! E se pronuncia com aquele “e” bem aberto, bem nordestino, do jeito que eu gosto! Meu amigo, eu sou da paz, mas fale “pistola” mais uma vez para você ver se eu não encarno a Maria Bonita!

Pois bem… Essas gírias deveriam vir com um recurso de interpretação simultânea, não é? A tecnologia já tão avançada e ainda não pensaram nisso. Então eu fico aqui passando aperto por causa das expressões idiomáticas dos outros. “Ficou pistola…”. Depois não reclamem quando eu entrar pocando com o meu baianês!

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Do Caos à Crônica

Achei que fosse assalto!

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Isabela é uma profissional bem-sucedida, divorciada e dona de um corpo exuberante em plena idade da loba. Mas tem uma questão que a aflige: o seu coração se sente sozinho há alguns anos.

Muitas desilusões fizeram com que Bela parasse de acreditar nos homens. Ela gostaria de ter um parceiro ao seu lado, mas sempre que algum sujeito se aproxima, ela acha que é para tirar algum proveito e a machucar. Quando Bela está conhecendo um rapaz e ele a desagrada, ela não dá corda para papo furado e já manda o indivíduo passear. Acho que o balde de paciência de Bela já transbordou, sabe? A frase mais comum dela é: “Acho que eu nasci para ficar só mesmo…”.

Às vezes, Bela está tão desacreditada que reage de forma até cômica a certas situações… Outro dia, ela foi malhar e depois resolveu ir ao cinema, sozinha mesmo. Isabela estava na fila para comprar o ingresso quando um rapaz se aproximou dela, puxando conversa, dizendo que tinha a achado muito bonita… Era uma paquera despretensiosa, numa fila de cinema, e o que ela me disse? “Amiga, eu pensei que fosse assalto! Fiquei tão apavorada que não troquei uma palavra com o rapaz!”

Isabela, confundir paquera com assalto é o fim da picada e do picadeiro inteiro! Desse jeito, o seu coração não vai encontrar alguém tão cedo, minha amiga. Esse medo que você tem, todo mundo tem. E não é medo de assalto… Esse medo, Bela, é de confiar e amar novamente.

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Do Caos à Crônica

Por diversão ou por precaução?

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Em viagem, há quem aproveite a ocasião para ser outro alguém… Travestir-se doutras almas, brincar com outros hábitos e personalidades… Imaginar-se noutro corpo, noutra vida. Essas experiências devem ser interessantes, não? Deve ser divertido mudar um pouco…

Intensifico algumas características de minha personalidade mais do que outras. Fico mais curiosa, comunicativa e definitivamente mais andarilha – meus joelhos voltam implorando por gelo! Mas não consigo deixar de ser eu… Não me interessa ser outra pessoa. E sabe, eu gosto disso!

Gosto de perceber que me sinto bem com quem sou. Gosto de notar que em qualquer lugar, em qualquer circunstância, minh’alma sabe lidar com a persona que construí, com os valores que tanto refleti para adotar, com a crença que levei anos para escolher, com estigmas que superei, com condutas éticas que consolidei. Isso me dá paz.

Sabe a “paz no mundo”? Não sei se a veremos tão cedo, não é? Mas a paz interior começa quando estamos confortáveis sendo nós mesmos em qualquer lugar e em qualquer situação. Nessas viagens, há quem adote meias verdades – ou mentiras completas – não por diversão ou por falta de aceitação pessoal, mas para evitar julgamentos. Há quem omita a nacionalidade para que os locais não sintam medo… Ou há quem minta sobre o estado civil para evitar atrevimento e abuso.

Cruel isso, não? Inacreditável como ainda temos que nos moldar ao olhar julgador e estigmatizante do outro… Como isso nos afasta da nossa autenticidade, do que nos torna únicos no mundo.

Se você está viajando e decide travestir-se de outro alguém, ótimo. Mas reflita se está fazendo isso por puro prazer ou para evitar o preconceito do outro. Pergunte-se: é por diversão ou por precaução? O que eu desejo é que possamos ser quem essencialmente somos e que gostemos disso!

E eu, em vez de travestir-me doutro alguém, opto por escrever essa crônica enquanto aprecio a um outonal pôr do sol, num agradabilíssimo bar de jazz português, em pleno centro histórico coimbrense. Mais eu impossível, não é mesmo?

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