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Do Caos à Crônica

Os Reféns dos Monstros Invisíveis

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São tantos reféns… E alerto: há mais de um monstro.

Eles se escondem no trabalho, na escola, até dentro de casa. Não adianta olhar em volta, nem embaixo da mesa, eles não podem ser vistos a olho nu.

Você pode ver os reféns, mas não os monstros. Ah, e, por favor, não confunda os reféns com os monstros. Não piore as coisas, combinado? Não tem confusão pior do que essa.

A nossa sociedade tem alimentado e fortalecido esses monstros… Tanta competição, cobrança, ódio, violência, desigualdade… Eles têm conseguido mais reféns.

E vejo tantos reféns!

Vejo adolescentes chorando com medo do vestibular; vejo mães de família com crise de pânico em casa; vejo jovens com ansiedade no trabalho; vejo amigas em depressão por não verem sentido em nada disso; vejo pessoas tão maravilhosas sendo discriminadas e, logo em seguida, capturadas por esses monstros…

Sim, eu os vejo…

Vejo os reféns… E vejo cada um dos seus monstros. Você os vê? Vê os monstros agora? Veja com os olhos da sua alma! Porque, como eu disse, você nunca verá os monstros invisíveis com os olhos do seu corpo.

É preciso que a gente pare de julgar o outro para apenas senti-lo. Isso dói, né? Eu sei. E, ainda assim, você não faz a menor ideia do quanto realmente dói no refém.

Alguns reféns têm cicatrizes… E elas me passam uma mensagem instantânea: “O sofrimento estava tão agudo que eu não vi alternativas naquele momento”.

Na mesma hora, sinto um misto de dor, respeito e alívio. Dor por imaginar, ao menos, 1% do desespero que o monstro lhe causou, ao invadir a sua vida.

Respeito pela sua caminhada, pela sua história, pela sua luta… Pelo seu ser como um todo. Alívio por ter persistido… Por dividir esse planeta comigo… Por buscar o lugar ao sol que lhe é de direito.

Mas, como por encanto, eu transcendo essa mensagem e o vejo para além das suas marcas e estigmas. Vejo a sua humanidade e acredito que nada é permanente… A vida é inconstante; tudo apenas está!

Ontem estive refém… Hoje desfilo algumas cabeças invisíveis na bandeja da minha alma. Mas ando bem devagar e lhe ofereço a minha escuta e a minha mão!

Para amanhã, uma única certeza: haverá alguém, também refém, lutando contra algum imprevisível monstro invisível.

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14 Comentários

14 Comments

  1. Luís

    9 de setembro de 2019 em 07:38

    Texto lindo demais, parabéns e obrigado por conpartilhar conosco!

    • Fernanda Sá

      9 de setembro de 2019 em 13:02

      Obrigada, Luís! Fico feliz que tenha gostado!

    • Angela Ximenes

      9 de setembro de 2019 em 13:57

      Fernanda que texto bacana!!! Parabéns pela lucidez com pitadas poéticas, as almas agradecem!

      • Fernanda Sá

        9 de setembro de 2019 em 18:10

        Eu que agradeço por me prestigiar com a sua leitura e o seu comentário, Angela!

  2. Geanne Araújo Bastos

    9 de setembro de 2019 em 07:46

    Fernanda, você novamente se superou, parabéns! Acho que imprimirei essa crônica e lerei-a repetidas vezes, refletindo sobre a profundidade das suas palavras. Sensacional!

    • Fernanda Sá

      9 de setembro de 2019 em 13:04

      Muito obrigada pelo seu feedback, Geanne! Esse assunto é profundo e merece muita reflexão mesmo! Que bom que gostou!

  3. Talita

    9 de setembro de 2019 em 12:49

    Sensacional!! Texto reflexivo e profundo!
    Parabéns!!

    • Fernanda Sá

      9 de setembro de 2019 em 18:11

      Muito obrigada, Talita! Volte sempre! <3

  4. Maria das Graças Pimentel Sá

    9 de setembro de 2019 em 13:20

    Lindo e verdadeiro texto, fiquei encantada. Colocado de maneira sensível que nos leva a muita reflexão. Parabéns, adorei a sua crônica. 👏🏻👏🏻👏🏻

    • Fernanda Sá

      9 de setembro de 2019 em 18:12

      Fico feliz que você tenha gostado! Grande beijo!

  5. ANA FERRER

    9 de setembro de 2019 em 13:57

    Parabéns Fernanda texto profundo e leve ao mesmo tempo.Sucesso.bjsss

    • Fernanda Sá

      9 de setembro de 2019 em 18:14

      Que ótimo! Muito obrigada pelo seu comentário, Ana! Até breve!

  6. Anair

    13 de setembro de 2019 em 07:10

    Essa crônica nos leva a refletir sobre nossos monstros e como nos tornamos seus reféns…. Sair dessa condição é um exercício constante que devemos fazer em nome do bom viver. Parabéns Nanda pela descrição realista, poética e reflexiva. Adorei! Beijos ❤😘 👏🏼👏🏼👏🏼

    • Fernanda Sá

      16 de setembro de 2019 em 09:08

      Muito grata pelo seu comentário, Anair. Grande beijo!

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Do Caos à Crônica

O resto é só firula

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Ontem fui tomar um café numa dessas casas de chá e, como de costume quando estou só, fiquei observando as pessoas – esse é um dos meus passatempos favoritos. Intercalo os meus olhares curiosos com uma leitura, uma escrita, ou mexo no celular, até para que ninguém fique onstrangido.

Para o meu deleite, surgiu uma figura interessantíssima. Na verdade, em menor grau, era uma figura até comum. Explico-me, ela era uma mulher jovem, muito elegante, com unhas e cabelos impecáveis, roupa chique, toda maquiada. A primeira coisa que pensei ao vê-la foi: capa de revista!

Continuei a observá-la discretamente – eu estava quase uma investigadora da Interpol. Notei que ela aguardava por alguém, pois não conseguia desfrutar da própria companhia. Aos poucos, eu não conseguia mais enxergar deslumbre naquela moça. Ela era linda e estava tão arrumada, o que houve? A observei um pouco mais e entendi o motivo: ela não confiava nela mesma. Senti vontade de oferecer uma conversa das boas, daquelas que traz a pessoa para a realidade… Mas me lembrei eu estava bancando a agente secreta naquele momento.

Uma mulher segura não tem a ver com unhas de porcelana, maquiagem perfeita, cabelo modelado, corpo sarado, nem com roupas da estação. Tudo isso agrega valor, é claro. Quem não fica um espetáculo com esse somatório de atributos? Mas tudo isso é firula! Após o primeiro impacto, se não houver a autoconfiança, você percebe que algo está faltando.

Como qualquer pessoa, uma mulher segura tem insatisfações, vaidades e metas, mas isso não a impede de se amar, porque ela sabe do próprio valor. Ela sabe que é uma mulher incrível pelas atitudes que tem, pela forma com que se posiciona no mundo, e por tudo o que acredita.

Você percebe uma mulher segura pela forma com que ela anda, que ela fala, e que até se poupa de falar. Você a nota pelas escolhas… Pela sabedoria de cadasim e de cada não, porque ela tem uma combinação fascinante: inteligência emocional e amor-próprio.

Ela sabe – como dois mais dois são quatro – que um sorriso sincero, uma gargalhada contagiante, um olhar penetrante, uma conversa agradável valem muito mais do que qualquer maquiagem impecável. Ela sabe que o jeito dela é enebriante… E que o resto é só firula.

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Do Caos à Crônica

Monstros e fadas

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Já notaram esse nosso hábito de julgar as pessoas em boas e más? É algo tão natural, tão automático, não é? E a gente erra toda vez. E isso é diferente de outras habilidades, porque quanto mais você pratica, mais você erra. Não adianta insistir. Porque, veja, ‘bom’ e ‘mau’, sempre será uma questão de perspectiva.

João é um empresário bem-sucedido, um patrão compreensivo, e é carinhoso com a namorada. No entanto, ele não registrou o próprio filho. A criança não tem contato com o pai e não recebe pensão. João é bom ou mau?

Ana Cláudia é uma mãe dedicada, uma filha zelosa com seus pais idosos, uma esposa fiel e amorosa. Mas Ana furta produtos de lojas. Ana Cláudia é boa ou má?

“Nossa, que monstro!”, quem nunca disse isso? Ou “Fulana é um anjo!”. Olha, sinto muito, mas anjos e demônios eu nunca vi! Fadas e monstros só vi nos meus sonhos e pesadelos mais criativos, elaborados pela liberdade da minha própria mente.

Nas minhas andanças prisionais, conheci muitas pessoas… As enxerguei sob as múltiplas perspectivas. Mas, inevitavelmente, todas que ali estão, foram julgadas como más pela justiça e como monstros pela sociedade.

O que eu posso lhe dizer? Estamos demonizando pessoas… Estamos desumanizando o outro e, assim, esquecendo a semelhança primordial e mais avassaladora entre você e eu: a nossa espécie. Não há monstros, nem anjos, nem fadas… Somos todos humanos.

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Não falo sozinha, converso comigo

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Nunca tive um amigo imaginário na infância… Até hoje eu não tenho – ainda bem, né? Porque na infância é até aceitável, mas na minha idade já seria esquizofrenia (com todo respeito aos esquizofrênicos, claro). Acredito que eu não tenha precisado criar um, porque sempre me virei muito bem, dialogando comigo mesma.

Pois é… Alguns agentes do F.B.I. (Familiares Bisbilhoteiros Intrometidos) já me flagraram tendo empolgantes conversas com… comigo! Certa vez, meu pai passou por mim quando eu estava muito concentrada fazendo “sabe Deus o que”, ele deu meia volta, parou na porta do quarto e disse: “Tá falando sozinha? Olhe… Isso não é normal…”.

Não falo sozinha, pai… Só bato um papo agradável com a minha pessoa, de vez em quando. E quer saber? Eu acho isso bem normal! Ora! Se a minha mente estiver abundante em pensamentos, elucubrando uma série de situações, e precisando compartilhar essa efervescência toda, eu vou ficar feito tonta esperando a companhia de alguém para falar? Eu não… Me viro só, ué!

Já comentei com vocês que a minha imaginação é impetuosa (só não o bastante para criar um bendito amigo imaginário). Então eu me faço perguntas, eu mesma respondo, dou dois reboliços e já apresento os contrapontos. A conversa rende por horas.

Bom mesmo é o falatório que extravasa, aquele que dá para tagarelar à vontade, em voz alta. Porque, às vezes, o murmurinho acontece apenas no cocuruto… Esse é péssimo! É aquele cochicho enjoado na cabeça, sabe? Não gosto assim. Ele acontece principalmente em público, porque não dá para a gente ficar dando uma de doida publicamente. Ou dá? Melhor não arriscar… Pelo menos, não toda hora.

Bom, vou continuar falando pelos cotovelos, trocando figurinhas comigo. Mas em público, vou fingir que sou normal, que é para evitar a fadiga.

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