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Do Caos à Crônica

Intelectual de gravador

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Sabe aquelas mulheres inteligentes, cultas, bem preparadas? Tenho algumas amigas assim. Raquel é uma delas. E, vou te contar… As vezes, é difícil encontrar um cara que consiga acompanhar os papos “cabeça” de Raquel, sabe?

Uma vez ela saiu com um rapaz até estudioso, mas esse só sabia falar sobre a profissão dele: Fisioterapia. O garçom já estava servindo a sobremesa, mas o papo continuava em ossos, articulações, tendões… É claro que esse rolo não foi pra frente, né?

Porque Raquel gosta mesmo é de quem sabe falar sobre o lado mais humano – e menos biológico – da vida… De quem sabe falar sobre política, sociologia, história,
literatura, filosofia… Nem sempre é fácil achar um desses…

Até que ela conheceu o Saulo.

Cara, o Saulo tinha a mesma formação que Raquel e logo no primeiro encontro ele já foi discursando sobre Dostoiévski, Nietzsche, Saramago… Óbvio que ela se encantou de imediato por esse boy – que ainda vinha ornamentado com um sedutor par de olhos verdes e um sorriso fascinante.

Mas lembra que eu disse que a Raquel é inteligente? Pois bem… Por mais encantada que estivesse, ela foi notando que o Saulo não queria nada sério com ela. Ele, inclusive, disse que adotava a frase do Quintana: “sempre preferi deixar dezenas de mulheres esperançosas do que uma só desiludida”.

Que papinho furado…

A Raquel percebeu que o Saulo tinha escolhido a vida boêmia, mas ela estava em outro momento. Ela queria alguém pra valer. Então, ela se mandou. Meses depois, quem reaparece? Saulo, claro! E Raquel pensou “ah, vou dar uma chance, só pra ver se ele ainda pensa daquele jeito…”. E saíram novamente.

O estilo boêmio – pra não dizer cafajeste – continuava o mesmo, tá? Mas o que a deixou embasbacada foi notar a tentativa do boy de seduzi-la usando EXATAMENTE os mesmos comentários sobre Dostoiévski, Nietzsche, Saramago, e companhia limitada. Até as pausas para “pensar” eram as mesmas!

E a Raquel se deu conta: “É óbvio! Ele não age naturalmente. Essa é a arma de sedução dele, estrategicamente preestabelecida!”. Creeedo! Para que tá feio, garoto! Mas não ache que a Raquel ficou chateada! Não!

A Raquel gargalhava! O rapaz, sem entender nada, é claro, continuava o seu falatório todo decorado. Ela, entusiasmada com a sua descoberta, pensava: “Me livrei de mais um babaca!”.

Daquele cara – antes tão fascinante –, agora só restavam os olhos verdes e o sorriso. E nada disso era suficiente para a Raquel. Nesse dia, ela se despediu dele com um sorriso tão debochado no rosto que o Saulo foi embora murcho e cismado. É claro que eles nunca mais se encontraram!

A Raquel até paquera quem não sabe falar sobre esses assuntos…

Mas, boy fake, ela agradece, porém dispensa, tá?

A saída é logo ali… Vai pela sombra!

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16 Comentários

16 Comments

  1. Talita

    2 de setembro de 2019 em 08:29

    Morri de rir com o Saulo! 😆

    • Fernanda Sá

      2 de setembro de 2019 em 22:43

      😂😂😂
      Rir é bom demais! Fico feliz! 😄

  2. Maria das Graças Pimentel Sá

    2 de setembro de 2019 em 12:21

    Amei e recomendo a sua crônica!
    Inteligente e cheia de humor, uma leitura interessante e muito bem escrita.
    Parabéns, curiosa esperando a próxima! ❤️

    • Fernanda Sá

      2 de setembro de 2019 em 22:44

      Você é a minha fã nº 1! 😜😍😘

  3. Hamora

    2 de setembro de 2019 em 13:09

    Homens como o Saulo tem um monte por aí,”… Raquel, sensata pulou fora a tempo!

    • Fernanda Sá

      2 de setembro de 2019 em 22:45

      Certa ela, né, não? Temos que ficar atentas a esses “boys fake”! 😘

  4. Luís Henrique

    2 de setembro de 2019 em 13:39

    A cara de pau da pessoa 😂😂 amei essa crônica! Boa demais!

    • Fernanda Sá

      2 de setembro de 2019 em 22:46

      A cara desse boy não arde! 😂😂😂
      Que bom que gostou! 😘😘

  5. Geanne Araújo

    2 de setembro de 2019 em 16:21

    Amei a crônica que tão bem retrata os tantos Saulos da vida e o quão pacificador ficamos após o cair das máscaras!!!

    • Ana Luci dês Graviers

      2 de setembro de 2019 em 17:00

      Modo intelectual do cafajeste hahhah

    • Fernanda Sá

      2 de setembro de 2019 em 22:48

      Exatamente isso! Quando enxergamos a verdade com clareza e sabemos o que fazer com ela, ficamos em paz! 😘😘

  6. Ana Luci dês Graviers

    2 de setembro de 2019 em 17:00

    Modo intelectual do cafajeste hahhah

    • Fernanda Sá

      2 de setembro de 2019 em 22:52

      Cada cafajeste investe na “arma de sedução” com a que tem mais facilidade, depois coloca no “modo automático” e voilà! 💁🏼‍♀️🤦🏼‍♀️😂

    • Anair

      8 de setembro de 2019 em 19:52

      Adorei o intelectual de gravado!
      Crônica que prende atenção e aguça a curiosidade para o desfecho final. Humor elegante e discreto. Muito engraçado a forma da inteligente Raquel botar o safado Saulo pra correr.
      Parabéns Nanda! Beijo❤ ❤ ❤

  7. Anair

    9 de setembro de 2019 em 10:23

    Adorei o intelectual de gravador. Crônica que prende atenção e aguça a curiosidade para o desfecho final. Humor elegante e discreto. Muito engraçado a forma da inteligente Raquel botar o safado Saulo pra correr.

    • Fernanda Sá

      9 de setembro de 2019 em 18:16

      Que bom que você se divertiu com a leitura, Anair! Volte sempre! Toda segunda-feira publico crônicas inéditas! Beijo grande!

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Do Caos à Crônica

Achei que fosse assalto!

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Isabela é uma profissional bem-sucedida, divorciada e dona de um corpo exuberante em plena idade da loba. Mas tem uma questão que a aflige: o seu coração se sente sozinho há alguns anos.

Muitas desilusões fizeram com que Bela parasse de acreditar nos homens. Ela gostaria de ter um parceiro ao seu lado, mas sempre que algum sujeito se aproxima, ela acha que é para tirar algum proveito e a machucar. Quando Bela está conhecendo um rapaz e ele a desagrada, ela não dá corda para papo furado e já manda o indivíduo passear. Acho que o balde de paciência de Bela já transbordou, sabe? A frase mais comum dela é: “Acho que eu nasci para ficar só mesmo…”.

Às vezes, Bela está tão desacreditada que reage de forma até cômica a certas situações… Outro dia, ela foi malhar e depois resolveu ir ao cinema, sozinha mesmo. Isabela estava na fila para comprar o ingresso quando um rapaz se aproximou dela, puxando conversa, dizendo que tinha a achado muito bonita… Era uma paquera despretensiosa, numa fila de cinema, e o que ela me disse? “Amiga, eu pensei que fosse assalto! Fiquei tão apavorada que não troquei uma palavra com o rapaz!”

Isabela, confundir paquera com assalto é o fim da picada e do picadeiro inteiro! Desse jeito, o seu coração não vai encontrar alguém tão cedo, minha amiga. Esse medo que você tem, todo mundo tem. E não é medo de assalto… Esse medo, Bela, é de confiar e amar novamente.

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Do Caos à Crônica

Antídoto contra a cegueira

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Sou baiana e encho o peito para dizer isso! Sou de Salvador, uma cidade cheia de cores, sabores, ritmos, crenças, magias e riquezas naturais. É muita cultura e beleza num só lugar!

É natural que pensemos no Farol da Barra, nas belas igrejas, na vista do alto do Elevador Lacerda para a Baía de Todos os Santos… Eu até suspiro ao pensar nesses lugares de Salvador… E concordo instantaneamente quando elogiam a nossa cidade. Outro dia eu estava num seminário quando disseram: “Salvador é muito bonita!”. E é mesmo, não é?

Foi forte quando um rapaz pediu a palavra ao final e perguntou: “Bonita para quem?”. Essas palavras foram como uma flecha contendo um antídoto contra a cegueira, trazendo todos os presentes à realidade. E ele continuou: “De onde eu – negro, pobre, morador de rua – a vejo, essa cidade é horrível!”.

Quando, por alguns segundos, ignoramos a crescente desigualdade e as mazelas sociais, e focamos apenas nas paisagens naturais, construções históricas e diversidade cultural, Salvador é muito linda, meu senhor!

Vocês acham mesmo que alguém diria isso ao rapaz? Qualquer explicação não reduziria em nada a angústia e a frustração que ele sentia, além de não ser o tipo de resposta que ele merecia receber. Inclusive, porque palavras jamais bastariam nesse caso. Qualquer apologia à cidade chegaria desconexa aos ouvidos dele. Seria até cruel.

Mas o Farol da Barra continua lá… Então, caso você deseje ver uma cidade meramente bonita, basta desviar o olhar dos que morrem de fome e dos que pedem socorro. Desta forma, ignorando os sofrimentos humanos, você continuará vendo a belíssima Salvador de sempre. Apenas tenha cuidado para não tropeçar no que – ou em quem – você não vê.

Alerta final: Após ouvir uma dor como essa e ser flechado com o antídoto contra a cegueira, torna-se impossível chamar de bela uma cidade sem lembrar das suas mazelas.

Você já consegue vê-los?

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Do Caos à Crônica

Por diversão ou por precaução?

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Em viagem, há quem aproveite a ocasião para ser outro alguém… Travestir-se doutras almas, brincar com outros hábitos e personalidades… Imaginar-se noutro corpo, noutra vida. Essas experiências devem ser interessantes, não? Deve ser divertido mudar um pouco…

Intensifico algumas características de minha personalidade mais do que outras. Fico mais curiosa, comunicativa e definitivamente mais andarilha – meus joelhos voltam implorando por gelo! Mas não consigo deixar de ser eu… Não me interessa ser outra pessoa. E sabe, eu gosto disso!

Gosto de perceber que me sinto bem com quem sou. Gosto de notar que em qualquer lugar, em qualquer circunstância, minh’alma sabe lidar com a persona que construí, com os valores que tanto refleti para adotar, com a crença que levei anos para escolher, com estigmas que superei, com condutas éticas que consolidei. Isso me dá paz.

Sabe a “paz no mundo”? Não sei se a veremos tão cedo, não é? Mas a paz interior começa quando estamos confortáveis sendo nós mesmos em qualquer lugar e em qualquer situação. Nessas viagens, há quem adote meias verdades – ou mentiras completas – não por diversão ou por falta de aceitação pessoal, mas para evitar julgamentos. Há quem omita a nacionalidade para que os locais não sintam medo… Ou há quem minta sobre o estado civil para evitar atrevimento e abuso.

Cruel isso, não? Inacreditável como ainda temos que nos moldar ao olhar julgador e estigmatizante do outro… Como isso nos afasta da nossa autenticidade, do que nos torna únicos no mundo.

Se você está viajando e decide travestir-se de outro alguém, ótimo. Mas reflita se está fazendo isso por puro prazer ou para evitar o preconceito do outro. Pergunte-se: é por diversão ou por precaução? O que eu desejo é que possamos ser quem essencialmente somos e que gostemos disso!

E eu, em vez de travestir-me doutro alguém, opto por escrever essa crônica enquanto aprecio a um outonal pôr do sol, num agradabilíssimo bar de jazz português, em pleno centro histórico coimbrense. Mais eu impossível, não é mesmo?

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