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Do Caos à Crônica

Santa Lady Gaga

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Camila se prejudicava muito por causa de uma coisa: a sua necessidade de perfeição. O cabelo nunca estava bom; odiava o formato do nariz e da boca; e, no corpo, a cada palmo ela via um defeito.

Ela se cobrava demais profissionalmente. Nunca achava que tinha feito um bom trabalho. Na empresa onde trabalha, Camila ficava em pânico sempre que o chefe designava novas tarefas ou falava em “superar as metas”.

Duas semanas antes de um prazo, Camila já estava inquieta, achando que não daria conta de fazer tudo no tempo estabelecido. Ela tomou tanto tombo por causa dessa sua auto-exigência que, no fundo, ela sabia que precisava mudar.

E Camila mudou. Todos notaram. Ninguém sabia dizer o motivo da mudança, e nem quando aconteceu exatamente. Mas que Camila mudou, mudou.

Quando a perguntavam, ela apenas sorria e dizia “Aceitei a minha humanidade intrínseca e deixei ir…”. A galera do trabalho se entreolhava, fazia aquela cara de “Ah, saquei…”, e deixava a Esfinge lá, com o seu enigma…

Até que a sua melhor amiga – a Larissa –, sempre muito curiosa, não resistiu, e a perguntou em particular:

— Que história é essa de “humanidade intrínseca”, Camila? “Deixou ir” o que, criatura? Nem namorado você tem pra “deixar ir”! Você tá muito diferente…

Camila só fazia rir com os comentários da amiga, e Larissa continuou…

— Você está muito mais alegre, confiante, comunicativa… O que aconteceu?
— Eu sonhei com a Lady Gaga, amiga!
— E o que a humanidade tem a ver com a Lady Gaga, Camila?
— No sonho, a Lady Gaga era tipo uma deusa, uma santa, um anjo… Sei lá o que ela era… Mas ela falou umas coisas que tocaram bem fundo, Lari… Acho que, no fundo da minha alma, sabe?
— É sério isso, Camila? Você tá me zoando… O que foi que ela disse?
— Ela disse pra eu “aceitar…”. Calma, ela me disse mais ou menos assim:

Camila, aceite, de uma vez por todas, que você não é perfeita… E orgulhe-se disso! Já estamos cansadas de saber que não devemos dar tanta importância para a nossa aparência física. Mas eu estou falando de algo que vai além da matéria: aceite que somos humanas, que temos características naturais da existência humana! Temos nossos medos e inseguranças… Apenas aceite isso e deixe ir! Mas, cuidado Camila! Temos um hábito muito nocivo que nos afasta das pessoas (e lembre-se: elas são tão humanas quanto nós): nós achamos que somos melhores ou piores do que elas, simplesmente porque somos diferentes. Não faça isso, Camila, não se afaste… Dessa forma, a humanidade vem fragilizando o convívio social que é a condição mais importante para a vida humana na Terra. Não somos autossuficientes. Nós precisamos umas das outras. Não vamos deixar que o nosso ego julgue as pessoas a nossa volta e que nos isole na nossa falsa ideia de que nos bastamos em nossas bolhas… Portanto aceite que eu, você, todas nós, somos lindamente imperfeitas, diferentes e codependentes. Isso liberta!

— Nossa, amiga, que mágico isso! Essa Santa Lady Gaga arrasa! Ela tem insta? Vou marcar um horário com ela…

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19 Comentários

19 Comments

  1. ANA FERRER

    26 de agosto de 2019 em 07:50

    Show .Paraabéns !!!

    • Fernanda Sá

      26 de agosto de 2019 em 10:53

      Muito obrigada, Ana! Beijos!

  2. Luís

    26 de agosto de 2019 em 08:03

    Adorei a analogia! Só mesmo Lady Gaga na causa rsrs

    • Fernanda Sá

      26 de agosto de 2019 em 10:54

      Hahaha Que bom que gostou! Beijo grande!

  3. Joana

    26 de agosto de 2019 em 09:03

    Adorei, Nandinha! 👏🏾👏🏾👏🏾

    • Fernanda Sá

      26 de agosto de 2019 em 10:55

      Que maravilha, Jô! Então volte sempre! Toda segunda-feira tem crônica nova! Beijão!

  4. Marcelo Borges

    26 de agosto de 2019 em 09:17

    Mais uma crônica incrível! Parabéns Nanda, e obrigado por fazer o bem a tanta gente por meio das suas palavras! 🙏🏾

    • Fernanda Sá

      26 de agosto de 2019 em 11:01

      Eu que agradeço pelo carinho!
      “Só faz sentido se for sentido!”
      Num mundo em que vivemos com tanta pressa, dediquemos este tempo e espaço para entrarmos em contato com os nossos sentimentos e as nossas emoções.
      Desejo que esses momentos de leitura e de reflexão sejam proveitosos a todxs!
      Volte sempre, Marcelo!
      Beijo grande!

  5. Talita

    26 de agosto de 2019 em 09:32

    Amei!!

    • Fernanda Sá

      26 de agosto de 2019 em 11:02

      Que bom! Volte sempre! Toda segunda-feira tem mais! Beijos!

  6. Lúcia Conceição Patricio

    26 de agosto de 2019 em 10:29

    Você arrasa Nandinha! Um primor de texto!

    • Fernanda Sá

      26 de agosto de 2019 em 15:11

      Obrigada, Lúcia! Beijo grande!

  7. Hamora

    26 de agosto de 2019 em 13:58

    Arrasou!

    • Fernanda Sá

      26 de agosto de 2019 em 15:12

      Que bom que gostou, Hamora! Mil beijos

  8. Fernanda Sá

    26 de agosto de 2019 em 17:37

    #docaosàcrônica #santaladygaga

  9. Graça Sá

    26 de agosto de 2019 em 21:01

    Maravilhosa sua crônica, Nanda!
    Parabéns por esta maneira interessante que você escreve! Beijo

    • Fernanda Sá

      27 de agosto de 2019 em 12:22

      Muito obrigada! Beijão! <3

  10. Anair

    13 de setembro de 2019 em 05:51

    Muito legal! Crônica bem escrita e com um desfecho que leva reflexão….”Somos lindamente imperfeitas, diferentes e codependentes“ Adorei! 👏 👏 👏parabéns Nanda! Beijo❤ 😘 ❤

    • Fernanda Sá

      16 de setembro de 2019 em 09:09

      Refletir é sempre a principal intenção! Beijão, Anair!

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Do Caos à Crônica

Feitiço Iceberg

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Primeiro encontro: a conversa está agradável, ele é gentil, cheiroso, bem-humorado, não tem mau hálito e não come de boca aberta. Vocês riem muito e descobrem vários gostos em comum. No final da noite aquele beijo, aquela química, aquela vibe. E você pensa instantaneamente: “opa, quando nos veremos de novo?” É muito bacana quando conhecemos alguém interessante assim, né?

Você tem certeza de que ele se sentiu da mesma forma que você. Mas nada do boy enviar uma mensagem no dia seguinte. Você espera, espera… E nada! Então você toma coragem e manda um sinal de vida. E o que ele faz? Ativa o modo Iceberg, responde da forma mais fria possível e se afasta.

Você fica confusa… Imagina que talvez aquela vibe tenha sido apenas fruto da sua imaginação e resolve não insistir. Afinal, há bilhões de pessoas nesse mundo, não é mesmo?

Então, meses depois, você vivendo a sua vida em paz – bela e debochada –, eis que o boy ressurge das cinzas, como uma poderosa Fênix, lançando chamas quentes para apagar o gigantesco Iceberg de outrora. E a primeira rajada flamejante vem quente com um potente: “Oi, sumida!”.

Você, que já nem se lembrava direito desse sujeito, foi arrebatada diante da imprevisibilidade do ataque da magnífica ave mitológica e, tomada por impulso, respondeu: “Oi, Coisinho…”.

Isso deu margem para que a Fênix lançasse freneticamente as suas chamas, cada vez mais ardentes. “Nossa… Gostei tanto de te conhecer, linda! Seu beijo é tão maravilhoso! Quando nos veremos de novo?”. O boy falava como se vocês tivessem se visto na noite anterior! Que tipo de resposta ele esperava?

“Oh, grandiosa Fênix, o seu ‘Feitiço Iceberg’ faz qualquer dama parar no tempo e aguardar pelas suas chamas do amor! Estive por meses paralisada naquele gelo, apenas esperando pelo seu retorno e me lembro como ontem dos seus beijos! Agora aguardo ansiosa para estar novamente em seus braços! Venha aquecer o meu coração!”

Francamente, camarada… Você acha mesmo que tem um freezer pessoal e que com papinho furado consegue retomar algo que desprezou tempos atrás? Quando dizemos que “a fila anda”, entenda o seguinte: a vida continua, fatos acontecem, outras pessoas surgem e os ausentes tornam-se irrelevantes – quando não são esquecidos.

Então, Poderosa Fênix, dá licença, que a moça tem uma valorosa vida para viver, e está sem tempo para feitiços, icebergs e chamas flamejantes. Beijos e não volte mais.

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Do Caos à Crônica

Fala-pluma e fala-flecha

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Já parou pra imaginar como seria a humanidade sem uma linguagem tão complexa e bem desenvolvida como a nossa? A gente nem pensa direito e pronto, já fala! É uma maravilha isso!

Seja lá o que você venha a sentir ou imaginar, pode encontrar palavras para – bem ou mal – se expressar! Mas embora a comunicação seja magnífica, às vezes, ela gera uma bela de uma confusão, né?

Sou uma grande fã da linguagem – mesmo ocasionalmente não fazendo bom uso dela. Afinal, eu também sou humana. Dominar a linguagem é como refinar qualquer outra habilidade. É preciso prática, estudo, vontade, disciplina… Ninguém nasce sabendo.

Nessa temática, sou como aquelas alunas que estudam em casa, chegam na escola sabendo o conteúdo, mas que vão parar na diretoria por pura rebeldia!

Apesar desses espasmos de insubordinação, eu continuo firme no afã de assimilar as preciosas lições acerca da comunicação interpessoal. Você provavelmente sabe que um remédio muito forte e poderoso, assim como pode curar, pode matar… Não sabe?

Pois a linguagem tem esse duplo poder… Na mesma proporção em que pode aproximar pessoas, abrir caminhos, acariciar egos e apaziguar relações; ela pode machucar pessoas, destruir uniões, falir empresas e iniciar guerras. Todo cuidado é pouco!

Durante muitos anos precisei me defender através dessa ferramenta… Usava o que eu chamo de “fala-flecha”. Recebia tantas flechadas que tornei-me uma exímia arqueira, pois flechava de volta com muita agilidade.

À medida que fui amadurecendo, decidi que eu queria mudar esse padrão de autodefesa e descobri algo que ajudou a acalmar a minha “arqueira interior”…

Passei a entender que por trás de cada fala-flecha há um sentimento não dito e, muitas vez, não compreendido por aquele que a atira… E, mais do que isso, há uma súplica para que o alvo – aquele que é flechado – compreenda o que não aprendemos a dizer de outra forma.

E foi nesse insight que tudo mudou… Percebi que cada fala-flecha é um enigma: o desafio é descobrir, por trás de palavras envenenadas e pontiagudas, o que a pessoa realmente está sentindo e precisando.

O que é necessário para quebrar o enigma? Muita calma, autocontrole e empatia. Quando esses elementos estão presentes, quebra-se o código, compreende-se a mensagem e surge, voilà, a “fala-pluma”!

O mais interessante da linguagem é que quem escolhe a moeda de troca somos nós. E não há taxa de câmbio! Olha só que vantagem nesse mundo moderno!

Isso significa que você pode receber uma mensagem em fala-flecha, pagar em fala- pluma, e vice-versa. Não é dinâmico isso? É uma maravilha!

Então, eu comecei a aderir mais à fala-pluma que é leve, clara e objetiva. Porque as flechas machucam as minhas mãos já tão calejadas e cheias de farpas, sabe?

Vou confessar… Por precaução, eu ainda ando com meu arco debaixo do braço e uma porção de flechas afiadas. E atenção: elas estão todas envenenadas!

Às vezes, a minha arqueira ainda atira umas flechas – é o instinto de defesa. Mas ela está aprendendo no tempo dela e está até se divertindo com as charadas perfurantes que recebe!

Agora ela anda com mais leveza… Está menos sisuda… Sobrancelhas ainda semicerradas, porém com olhos mais acolhedores do que antes e um leve sorriso no rosto. Abaixou um pouco a guarda e vive soprando falas-pluma atoa por aí…

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Do Caos à Crônica

Os Reféns dos Monstros Invisíveis

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São tantos reféns… E alerto: há mais de um monstro.

Eles se escondem no trabalho, na escola, até dentro de casa. Não adianta olhar em volta, nem embaixo da mesa, eles não podem ser vistos a olho nu.

Você pode ver os reféns, mas não os monstros. Ah, e, por favor, não confunda os reféns com os monstros. Não piore as coisas, combinado? Não tem confusão pior do que essa.

A nossa sociedade tem alimentado e fortalecido esses monstros… Tanta competição, cobrança, ódio, violência, desigualdade… Eles têm conseguido mais reféns.

E vejo tantos reféns!

Vejo adolescentes chorando com medo do vestibular; vejo mães de família com crise de pânico em casa; vejo jovens com ansiedade no trabalho; vejo amigas em depressão por não verem sentido em nada disso; vejo pessoas tão maravilhosas sendo discriminadas e, logo em seguida, capturadas por esses monstros…

Sim, eu os vejo…

Vejo os reféns… E vejo cada um dos seus monstros. Você os vê? Vê os monstros agora? Veja com os olhos da sua alma! Porque, como eu disse, você nunca verá os monstros invisíveis com os olhos do seu corpo.

É preciso que a gente pare de julgar o outro para apenas senti-lo. Isso dói, né? Eu sei. E, ainda assim, você não faz a menor ideia do quanto realmente dói no refém.

Alguns reféns têm cicatrizes… E elas me passam uma mensagem instantânea: “O sofrimento estava tão agudo que eu não vi alternativas naquele momento”.

Na mesma hora, sinto um misto de dor, respeito e alívio. Dor por imaginar, ao menos, 1% do desespero que o monstro lhe causou, ao invadir a sua vida.

Respeito pela sua caminhada, pela sua história, pela sua luta… Pelo seu ser como um todo. Alívio por ter persistido… Por dividir esse planeta comigo… Por buscar o lugar ao sol que lhe é de direito.

Mas, como por encanto, eu transcendo essa mensagem e o vejo para além das suas marcas e estigmas. Vejo a sua humanidade e acredito que nada é permanente… A vida é inconstante; tudo apenas está!

Ontem estive refém… Hoje desfilo algumas cabeças invisíveis na bandeja da minha alma. Mas ando bem devagar e lhe ofereço a minha escuta e a minha mão!

Para amanhã, uma única certeza: haverá alguém, também refém, lutando contra algum imprevisível monstro invisível.

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